domingo, fevereiro 23, 2014

Sonhar ainda não paga imposto

 
 
Um dia quando for grande, vou ter uma casa num monte alentejano....
Daquelas casas deliciosas que me roubam suspiros e me apaixonam.
Será o meu refúgio do fim de semana.
Terá uma lareira típica no meio da sala, tetos em madeira envelhecida, chão em granito e soalho antigo. Um fogão a lenha na cozinha.
No quarto uma cama enorme, alta, coberta de mantas, imensas almofadas e uma lareira.
Uma janela ampla para que possa contemplar o paraíso, verde ou dourado, o clarear de um novo dia.
Sentada na cadeira de baloiço no alpendre, beberei um bom copo de vinho e deixar-me-ei embalar pelas brisas quentes, deliciosas, do entardecer...
 Um dia quando for grande, terei uma pequena casa assim....


...Tenho tanto jeito para sonhar...
 

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Quando perguntarem, sorrirei



Olhava-a enquanto a via arrumar.
Levava uma mala cheia de nada e no entanto, o peso era tal, que quase se esgaçavam as costuras.
Contemplou-a durante um largo traço de tempo, tentou conter.
Mas a verdade estava ali, há alturas em que não se diz, em que não se fala. Mas há momentos em que é preciso verbalizar, em que a curiosidade é maior e sem maldade pergunta-se.
Diz-me, começou ele, enquanto lhe tentava ler nas costas voltadas...
-Porque razão voltaste tu atrás? Tu que tens sempre cuidado, que te preocupas tanto...porque voltaste tu a sentar-te aqui, onde sempre soubeste que era frio?
Aqui, onde o sol não brilha e as brisas quentes não passam de sopros mornos?
Devagar, pausadamente, ela fechou a mala que estava repousada em cima da cama, pegou-lhe com jeito, encostou-a a si, caminhou os 3 passos e deitando-a no chão, deixou-a à beira da porta.
Finalmente virou-se.
Olhou-o de frente, como há muito tempo não tinha coragem de fazer.
Sorriu-lhe, sorriu-lhe de verdade, num olhar apenas desviado pela madeixa de cabelo.
Sentou-se em cima da mala, estendeu-lhe a mão e chamou-o a si.
Lado a lado, ombro com ombro, sem pressa falou.
-Meu fiel amigo, companheiro de todas as aventuras, de noites longas, de dias curtos, de tantas e tantas horas perdidas outras tantas ganhas.
Tu, tu que estás sempre comigo...
Nunca te enganei, jamais te mentiria: não sei como o fazer, não sou de todo boa a tentar...
Sentei-me na pedra fria porque assim o desejei.
Porque assim o quis. Porque foi essa a minha vontade.
Soube sempre que a espera seria difícil e duvidosamente alcançada mas preferirei sempre ficar roxa do gelo e da tempestade que me fustiga, do que não saber o que é ter frio.
Só porque me sentei aqui, não significa que tenha ficado quieta, imóvel ou parada. Deixei apenas uma parte para trás, algures aqui sentada, porque me fazia sentido que assim fosse...
Esta é a magia da vida, reconhecer que por vezes precisamos de deixar algo porque só assim faz sentido, faz sentido naquela hora, naquele dia, naquele momento.
E fará sentido uma vida inteira...
Nunca te esqueças que haverá sempre memórias que nos enche os olhos de água e nos provocam o sorriso.
Foi bom, é bom, e o que virá será sempre melhor.
A voz tremia-lhe, mas havia uma leve tranquilidade no discurso.
Com carinho encostou a cabeça ao seu ombro e sorriu.

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Horas de desassossego




A noite foi longa...
As horas não passam, os minutos são intermináveis.
Desisti de olhar para o relógio.
Tenho alguma dificuldade em assumir a falta de descanso,
Em admitir o cansaço que se instalou nas últimas horas.
Sinto um peso sobre mim,
A cada passo que dou torna-se pior, e pior.
Procurei o abrigo,
Quis o aperto,
Precisei dele.
Em surdina chamei...
Na escuridão pus-me a jeito.
Baixei a cabeça, escondi o medo
e sem olhar nos olhos,
pedi...
Abraça-me,
Abraça-me, com força genuína.
Abraça-me apenas.
Porque a noite foi longa,
mas o dia será ainda mais longo....

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Há dias muito, muito interessantes

Acordei tarde.
Vesti as meias, o vestido e o blazer.
Saio do quarto e calço os sapatos.
Já estava a vestir o casaco comprido quando reparo que tenho de mudar de meias porque rasguei as que tinha vestido. Really!!??
Lá saí de casa, pelas escadas já levo a chave do carro na mão, chego ao pé do dito e alguém se lembrou de mo bloquear!! A sério?? Logo de manhã?? No dia em que acordei tarde??
Duas buzinadelas depois, aparece o animal a pedir desculpa porque foi só beber café!!
Acredito que tenho uma cara tão lixada que a homem não para de pedir desculpa...
A 500 metros do edifício onde trabalho, maravilhosa calçada portuguesa, fico com o salto do sapato preso, ao libertar-me dou cabo da capa...que mandei arranjar na semana passada.
Ajeito o casaco, aliso o vestido e sigo. Eu não sou mulher de dar parte fraca mas estou tão zangada que só me apetece chorar.
Venho do almoço, copo de café na mão, escorrego (pois claro) e entorno café mesmo no meio do vestido!! Portanto estou à 1h30 com as pernas molhadas devido à limpeza que se conseguiu arranjar.
Ainda só são 15:15...até tenho medo...
Pelo sim, pelo não mantenham uma distância segura da minha pessoa...

terça-feira, fevereiro 18, 2014

Sou uma apaixonada pelas palavras deste Senhor...

"CARTA À MULHER QUE VOU LEVAR PARA A CAMA

Fornicar é uma ordinarice. É o sexo pelo sexo, o corpo pelo corpo, o suor pelo suor. Sem a magia da comunhão, sem a intensidade emocional da emoção do fundo, da emoção que vem das veias como o grito vem da garganta. Fornicar sabe a carne na carne, a reles pénis em reles vagina. Fornicar é dois corpos que se esfregam. Uma masturbação assistida. Uma partilha insistida.

A mulher que vou levar para a cama – sim, tu – não me vai fornicar.... Não vai porque eu não deixo. Lamento. Não deixo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama tens de ser mais do que fornicadora, mais do que especialista em sexo, mais do que a melhor sexoralista do mundo, mais do que a melhor orgasmista do mundo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama vais perceber que fornicar não existe. Fornicar-me não existe. Fornicar, quando fornicar é tudo o que dois corpos que se embraçam fazem, sabe a nada. Continuas sem entender nada?

Mais uma vez: se me queres fornicar, se só me queres fornicar e nada mais do que fornicar-me, quando me levares para cama é certo que não me vais levar para a cama. Fornicar é um amor coxo. Um amor manco. E das duas pernas - ou das duas bolas. Fornicar nem sequer é amor, nem sequer é amável. Fornicar consiste em trocar a mão no sexo pelo sexo que está mais à mão. Desculpa – mas não.

Fazer amor é uma seca. Um tédio. Uma canseira psicológica. É sempre mais do mesmo. Um abraço aqui, um beijo ali, um “amo-te” aqui, um “também te amo” ali. Há carinho, há ternura, há partilha, há cumplicidade. Mas é poucochinho. Coisa pouca quando se pretende o êxtase. Fazer amor é uma seca. Fazer amor, quando tudo que se faz na cama entre dois corpos é fazer amor, é um aborrecimento, uma imensa sensaboria. Se aquilo que me queres fazer, quando me levares para a cama, é amor, daquele que se faz de só carinho, de só ternura, de só cumplicidade de afectos, então garanto-te que não me vais levar para a cama. Não vais. Lamento. Não vais. Fazer amor, para mim, na minha cama e em todas as camas que são minhas (e são minhas, naquele exacto instante que tem de durar para sempre, todas as camas em que eu me deito com outros corpos que se deitam), não existe. Não existe só candura, não existe só o “amo-te tanto” e o “és tão lindo e tão amoroso e tão querido”. Muito menos existe o “és tão fofinho”. Fofinho mas é uma merda. Fofinho é tão pequeninho que até me apetece ir-te ao focinho. Fofinho mas é uma merda. Eu não sou fofinho, não quero ser fofinho e tenho asco de quem é fofinho. Fofinho é um nojinho. Comigo não vais fazer amor. Podes tirar daí o cavalinho da chuva. E podes, já agora, montá-lo também – que daqui não levas nada. Tchauzinho.

Fazer amor é uma treta. Uma engonhice, uma trambiquisse. Fazer amor é uma treta e uma engonhice e uma trambiquisse como fornicar é uma treta, uma engonhice e uma trambiquisse. Fazer amor é uma seca como fornicar é uma seca. Manda fornicar o fazer amor. E manda fornicar tudo o que seja só fornicar. Fornicar por fornicar é simplesmente ficar. E ficar – és tão parvo que ainda nem tinhas olhado bem para a palavra – é não sair do sítio. Estar ali, quieto, a sentir mais do mesmo. E menos do mesmo. À medida que vais fornicando vais-te fornicando. E à medida em que vais fazendo amor vais desfazendo amor. Desfazendo-te – e a quem amas – em amor. Todo o amor se dissolve em esperma. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fornicar. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fazer amor. E agora anota sobretudo o que aí vem, meu amor.

Fornicar amor. É isso, e só isso, que vais fazer comigo quando me levares para a tua e para a nossa cama – e é sempre de dois a cama em que dois se fazem assim: como assim tem de ser. Fornicar amor. Até á última gota fornicar amor. Nem fornicar nem fazer amor – fornicar amor. Fornicar-te como à mais prostituta das prostitutas. E amar-te como à mais única das amadas. Fornicar amor. Chamar-te pêga e dizer-te amo-te, espancar-te o sexo e afagar-te o beijo. Ser o doce e a fera - a treva e o raio. Fornicar amor. E só assim, entre um grito e um afago, fornicar-te com amor: fazer-te amor."
Pedro Chagas Freitas...

domingo, fevereiro 16, 2014

Como...

Como é que me permito a querer?
Como é que me digo o quanto me apetece quebrar a barreira que insisto em manter?
Sentar-me no colo e fundir-me na pele, perder-me na boca?
Como...como é que me admito o capricho, a vontade de tirar os meus sapatos e descalça correr?
Como é que me digo que me enfeitiça a calmaria dos olhos e a turbulência do olhar?
Que me fascinam as palavras, que as guardo, apertadas na alma?
E o desejo? O desejo...Monstro sem perdão....
Como é que me abstraio do desejo que me consome e me faz perder o equilíbrio?
De que modo posso eu negar-me à loucura de me deslumbrar, de voltar a cair na tentação de sonhar?
Como posso batalhar contra o sorriso que se me arranca ao escutar os passos?
Como me liberto do calor, da vontade de sentir aquele calor, da dentada divina na pele nua do meu corpo?
Como é me digo o quanto queria poder ver, contemplar à luz do sol? Aclarar as sombras, dar cor ás formas escuras?
Como é que me solto desta necessidade do abraço, do corpo e da alma que quero sentir por perto?
Como é que me convenço da insignificância do que sou num mundo que não me pertence?
Luta, guerra inglória...
divide-me a alma,
revolta-me a mente,
desfoca-me o pensar...

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Depois do Hoje, é só isto


Se queres: sê fácil.
Se Gostas: sê ainda mais fácil.
Sem medo: abre os braços, as pernas, a alma, o coração, acima de tudo abre a boca.
Descomplica.
Apetece-te um beijo: força, beija.
Apetece-te uma gargalhada: ri até doer.
Precisas de dizer: grita, berra até se ouvir.
Dá um abraço se te apetece.
Queres agarrar: pois bem aperta!
Atreve-te a dar a mão se é isso que desejas.
Queres sexo: rasga a roupa. corre atrás do prazer. transpira. sente. partilha.
Seja o que for: não deixes por fazer...

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

O último pensamento do dia

Molhei a gabardine, o vestido e as botas.
Os caracóis que tanto tento esconder enrolados até mais não.
Quero lá saber.
Diabo de dia. Maldito papel.
Precisava mesmo de arejar.
Sorri ao tom bonito do entardecer.
Dois quilómetros depois já me sinto bem melhor.
Doem-me os pés mas pelo menos a alma está bem mais leve....
Livrei-me da roupa fria, encharquei-me de água quente, aqueci o corpo e a mente.
Aguarda-me o meu mais precioso refúgio.
Deito-me como estou, cabelo húmido, pele nua.
Aprecio o toque do macio no corpo.
Sinto-me cansada, dorida mas não consigo deixar de pensar
Apetecia-me ouvir uma história...
Porque no silêncio, de olhos fechados, apetecia-me ouvir-te sorrir.

Conflito

Não avisa. Chega de manso, passos em bicos de pés.
Chamei

Não lhe dei permissão.
Invoquei

Não houve consentimento.
Pedi

Explorou. Explorou-me sem pedir.
Deixei

Remexeu-me os recantos. Escravizou-me os sentidos.
Permiti

Ladrão. Oportunista. Desassossegador.
Gostei

Tentei resistir.
Desisti

Roubou-me o descanso. Perturbou-me o sossego.
Quebrei

Abri a coberta. Deitou-se em mim.
Aqueci

Abro a mão pequena sobre o peito.
Senti

Passei a mão pelo rosto.
Sorri

Ofereci o abraço.
Cedi

Afaga-me a cara. Ajeita-me o cabelo. Embala-me em ti.
Escrevi

Fez-se-me um nó no peito.
Chorei

sábado, fevereiro 08, 2014

Numa tarde amena rendi-me....

 
 
..."Queria dizer-te. Queria.
Queria olhar-te. Olhar-te com força – como se olha com força? E dizer-te.
Dizer-te que sim. Sempre sim. Desde o primeiro não que sim.
Dizer-te que quero. Olhar-te com força. Dizer-te. Queria.
Dizer-te. Negar o nã...
o. Negar o não que desde sempre – onde começou o sempre? – foi sim.
Dizer-te menti. Dizer-te fugi. Dizer-te parti.
Queria. Dizer-te aqui. Dizer-te agora. Dizer-te já.
Queria. Sempre queria.
Queria, amor. Amor.
O imperfeito. Queria. O imperfeito.
Amor."


in "O livro dos Loucos"